Ano fraco de bons discos. Nada muito marcante.
Dentre os medalhões o único barulho foi causado pela crise de meia-idade de
Dentre os medalhões o único barulho foi causado pela crise de meia-idade de
Caetano Veloso que, retomando a aspereza, a inquietação, o furor novidadei-
ro que o fez se ligar em Hendrix, reggae, Black Rio, Cazuza, antes que a
maioria fez um disco que o coloca novamente no cenário da MPB como
artista relevante digno de reflexão. Fica pra trás a fase de releituras dos
cancioneiros latino e americano.
Na primeira audição parece uma caricatura, um coroa recém descasado
Na primeira audição parece uma caricatura, um coroa recém descasado
querendo se passar por garotão, esculhambar a ex (com classe e carinho),
e mostrar vigor pra mostrar que ainda tá vivo, doido pra comer buceta
nova. E é isso mesmo, mas não é só. Ele se cercou de um trio juvenil e
supercompetente, mas não vai a reboque deles. Reparando bem vai se
vendo os fios que ligam esse trabalho com outros trabalhos de Caetano,
de Transa a Velô, vendo a sintaxe caetaniana, seus tiques e cacoetes.
Vendo também que talvez esse seja o álbum em que ele mais se expõe,
a separação, envelhecimento, a perda do amigo (Wally Salomão),
a sexualidade.
A sonoridade é moderna, reflete o que está acontecendo no rock hoje,
A sonoridade é moderna, reflete o que está acontecendo no rock hoje,
urgência,rapidez, sujeira, repetição. Mas não é refém do rock, não é um
disco de rock,embora tenha inflexões roqueiras. Há espaço até para uma
batida axé como em Musa Híbrida, e o rap nessa retomada de Haiti que é
O Herói. Não é um disco de rock por que Caetano não é nem tenta ser um
cantor de rock. Sua voz não soa gritada, áspera, raivosa, nem mesmo em
Rocks, a mais rockinha do disco.Ainda bem. E a melhor faixa nem tem muito
de rock, é uma balada meio Bob Dylan, meio Raul Seixas, meio Odair José,
uma balada que faz o inventário após o fim do relacionamento, um canto
de valeu a pena, que é Não Me Arrependo.
Chico x Caetano. Com os lançamentos próximos um do outro, foi inevitável a
Chico x Caetano. Com os lançamentos próximos um do outro, foi inevitável a
comparação de Carioca e de Cê. Pra mim, o disco de Chico é muito bacaninha
e tal mas não tem a vitalidade, a comtemporaneidade que tem Cê. Pode ser
que no futuro o disco de Chico seja reconhecido como um de seus
clássicos, à altura de seus melhores trabalhos e o de Caetano passe a ser
entendido como menor dentro de sua obra, uma extravagância de meia-idade.
Mas agora, o trabalho de mais relevância, que mais instiga é o Cê de Velô.
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